Entrevista Dr. Rui Rio

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A maioria das escolas do ensino superior presta um serviço de qualidade suficiente para as pessoas enfrentarem a vida profissional”

 - Afirma Dr. Rui Rio

 

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Rui Rio, ex-presidente da Câmara do Porto, é o nosso entrevistado para a presente edição da “newsletter” do ISLA-IPGT. Mas foi também o orador convidado para a sessão solene de abertura do ano académico desta instituição, em 28 de outubro, abordando as “origens da crise económica portuguesa”.

Na conversa que manteve connosco ainda antes da conferência de abertura do ano lectivo, Rui Rio, questionado sobre se considera que a formação ministrada nas escolas portuguesas de ensino superior está em linha com as necessidades do país, e com o nível de exigência do mercado de trabalho, considera que “a maioria presta um serviço de qualidade suficiente para as pessoas enfrentarem a vida profissional”. 

Mas vai mais longe, afirmando que “o problema está nas oportunidades e na falta de crescimento da economia. Não é preciso ter-se uma bagagem teórica brutal, não tem que se ser um sábio, para se trabalhar com profissionalismo e competência. Tem de se ter as bases necessárias e depois a capacidade para se ir aprendendo sempre ao longo da vida”, afirma.

Sobre o rumo que a política económica do actual governo está a seguir, o ex-presidente da Câmara do Porto é cético, e não tem dúvidas que o aumento do consumo interno não é a solução para Portugal sair da crise. Para Rui Rio o caminho é outro: “Nós temos de crescer e esse crescimento tem de ser por via das exportações, da substituição de importações e do investimento produtivo. A visão do Governo não é essa, é mais virada para o consumo privado. Esse aspeto, somado com a dependência política do acordo parlamentar com a extrema esquerda, em nada favorece a confiança dos agentes económicos, particularmente dos investidores”.

 

P – É sabido que desde há longos anos mantém uma boa relação pessoal com o actual Primeiro-Ministro. Na sua opinião, o Dr. António Costa que conheceu no Parlamento, como ministro, e mais tarde na Câmara de Lisboa, quando o senhor presidiu à do Porto, é o mesmo que hoje chefia o Governo?

R – Sim. Daquilo que conheci do Dr. António Costa não posso dizer que se esteja a comportar de uma forma muito diferente do que tinha feito antes de ser Primeiro-Ministro. Sempre foi combativo, negociador, de esquerda e com visível habilidade política. E também sempre lhe reconheci uma notória frieza pessoal e política na forma como atua em algumas circunstâncias. O facto de termos uma relação pessoal positiva e respeitosa não quer dizer que não existam diferenças assinaláveis entre nós os dois.

Rui Rio 2

 

P – Da sua experiência política é o cargo que faz o político, ou o político que faz o cargo? 

R – Ambos. É evidente que um cargo exercido por duas pessoas muito diferentes origina um resultado final bastante diferenciado. Mas também é verdade que todos nos temos de adaptar ao cargo que, em cada momento, podemos estar a exercer. Ninguém se pode comportar da mesma forma em cargos de perfil e responsabilidade muito diferentes.

 

“O aliviar da denominada austeridade

parece-me correto, só que o ritmo 

exagerado a que está a ser feito

em nada auxilia a evolução da economia” 

 

P – Que avaliação faz deste primeiro ano do Governo liderado pelo Dr. António Costa?

R – Como todos os Governos tem aspetos positivos e aspetos negativos. A polémica em que me parece que conseguiu maior aceitação popular foi no dossier dos colégios privados. Penso que a grande maioria das pessoas aplaudiu o fim da injustiça que representava apoiar alguns colégios com dinheiro do Estado, quando há alternativas públicas nas suas imediações.  A polémica mais negativa terá sido a gestão do dossier CGD, que me pareceu a mim, e penso que à maioria das pessoas, absolutamente catastrófica. No cômputo global não tenho dúvidas que o aliviar da denominada austeridade me parece correto, só que o ritmo exagerado a que está a ser feito em nada auxilia a evolução da economia. 

 

P – As políticas económicas que o Executivo vem imprimindo à governação são, no seu entendimento, as adequadas para que o País saia da crise em que tem estado mergulhado?

R – Não, não são. Nós temos de crescer e esse crescimento tem de ser por via das exportações, da substituição de importações e do investimento produtivo. A visão do Governo não é essa, é mais virada para o consumo privado. Esse aspeto somado com a dependência política do acordo parlamentar com a extrema-esquerda em nada favorece a confiança dos agentes económicos, particularmente dos investidores.

 

“Se a justiça funcionasse

muitos gestores bancários,

e não só, estariam a responder

pelo que fizeram ao País”

 

P – A crise que atravessamos tem as suas raízes, no seu entendimento, em factores predominantemente políticos, em factores económicos, ou nos dois?

R – Esta pergunta teria de ser respondida através da publicação de um livro; de um livro bem grosso. Mas sintetizando, posso dizer que, em minha opinião, a primeira responsabilidade é política. Foram, em primeira linha, decisões políticas, ou a falta delas, que nos trouxeram até aqui. Mas também não nos podemos esquecer da crise económica mundial de 2008 e da responsabilidade de um conjunto de outros elementos da nossa sociedade, a começar pela gestão da banca. Se a justiça funcionasse – que é outros dos aspetos bem negativos que Portugal tem – muitos gestores bancários, e não só, estariam a responder pelo que fizeram ao País.

Rui Rio 3

 

P – Considera que a actual coligação parlamentar que suporta o Governo PS tem condições para cumprir a legislatura?

R – É uma boa pergunta para uma taróloga. Aparentemente tem condições, se o vai conseguir é que já não sei. Depende de tantos fatores…

 

P – Da sua avaliação e experiência como quadro superior de uma empresa internacional de RH considera que a formação superior académica que Portugal fornece aos seus cidadãos está ao nível da praticada nos nossos parceiros europeus, e em linha com as necessidades dos mercados de trabalho?

R – Não tenho dúvidas de que está. Não estarão todas as escolas de ensino superior portuguesas nessas condições, mas a maioria presta um serviço de qualidade suficiente para as pessoas enfrentarem a vida profissional. O problema está nas oportunidades e na falta de crescimento da economia. Não é preciso ter-se uma bagagem teórica brutal, não tem que se ser um sábio, para se trabalhar com profissionalismo e competência. Tem de se ter as bases necessárias e depois a capacidade para se ir aprendendo sempre ao longo da vida.

 

 

Entrevista de Manuel Pinto Teixeira

Foto de Arquivo 

 

 

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